Super-Heróis: Choque de Realidade

Super-Heróis não são mais crianças. E o “sonho americano” morreu…

Particularmente, tenho um grande interesse por histórias voltadas para o público adulto, com temática e linguagem madura e menos superficial. Quando percebo durante um enrendo, por menor que seja, a presença de elementos relacionados à ética, moral, filosofia, questões culturais e políticas, admito ficar completamente hipnotizado, até separar e analisar cada uma das peças do contexto.

Naturalmente, não seria diferente quando estou jogando RPG, embora seja um verdadeiro obstáculo explorar e inserir este gênero em campanhas. Então, acompanhe algumas dicas para fontes de pesquisa, informação e inspiração para incorporar um clima de realismo em jogos de RPG de super-heróis:

E se os super-heróis decidissem realmente mudar o mundo? E se começassem a agir do jeito que nós gostaríamos de agir diante de problemas insolúveis? E se nós começássemos a pensar como super-humanos, numa escala que nunca imaginamos antes?  – The Authority

The Authority, série publicada pela DC Comics e criada pelo roteirista Warren Ellis e o desenhista Bryan Hitch, descreve super-heróis decididos a alterar o rumo do mundo através de seus poderes e habilidades. No entanto, acima de qualquer autoridade política, a atuação do complexo grupo de heróis não têm limites, indo muito além do considerado necessário para manter a paz ou tornar o mundo melhor. Mais adiante, na série de volumes, os super-heróis sofrem com as consequências de suas ações, falhando miseravelmente em salvar o planeta e boa parte da humanidade, restando apenas vestígios de fracasso e culpa.

Seguindo essa linha, Alan Moore e Mark Millar, dois grandes roteiristas, transmitem idéias geniais sugerindo como os super-heróis também são suscetíveis aos problemas banais e mundanos de nossa sociedade.

O primeiro, Alan Moore, foi o responsável por uma das mais importantes obras dos quadrinhos, na qual não poderia deixar de estar presente neste texto. Watchmen, é certamente um ícone de abordagem e inspiração para os tempos modernos, com todos os elementos citados do gênero retratados por um universo profundo, cativante, e principalmente, verossímil. Durante o enredo, os neuróticos personagens principais e sua natureza humana estão em constante conflito, aumentando o drama e a responsabilidade moral em cada momento dos vigilantes mascarados.

A cidade tem medo de mim. Eu vi sua verdadeira face. As ruas são sarjetas dilatadas cheias de sangue e, quando os bueiros transbordarem, todos os vermes vão se afogar. A imundice de todo sexo e matanças vai espumar até a cintura e as putas e os políticos vão olhar para cima gritando “salve-nos” … e eu vou olhar para baixo e dizer “não”. – Diário de Rorschach;  – Watchmen.

Do outro lado, Mark Millar, têm lugar de destaque pelos trabalhos na linha Ultimate Marvel (Millenium no Brasil), uma versão atualizada de alguns personagens populares da editora, propondo uma nova origem, roupagem e focando uma abordagem mais moderna.

Em Os Supremos, versão Ultimate de Os Vingadores, os propósitos dos super-heróis são questionados em todo momento. Bruce Banner, o Hulk, em sua fúria incontrolável torna-se um grande problema para a população, e tão logo para o grupo de heróis. Thor, apontado como louco, tem sua divindade contestada. Steve Rogers, o Capitão América, um soldado irredutível e solitário, descongelado após décadas, torna-se perdido em um mundo totalmente desconhecido.

E, muito além dos quadrinhos, uma outra excelente maneira de criar profundidade para um universo de super-heróis é dispor de fatos reais, pesquisar e utilizar como fonte de inspiração momentos marcantes de nossa história, ou manter-se frequentemente atualizado nas manchetes e reportagens de canais multimídia.

Aliás, e para finalizar com uma visão pessoal para elaborar campanhas mais realistas com super-heróis, é de não tentar compreender tudo em nosso enigmático mundo, não existe fórmula matemática para entender o significado de certas coisas, elas simplesmente acontecem, mesmo quando não fazem sentido algum. O mundo é caótico, leviano, incompreensível e a mente humana pode ser apenas uma piada mortal.

Who Watches the Watchmen? …

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14 comentários sobre “Super-Heróis: Choque de Realidade

  1. Eu sou fã de super heróis a longa data, mas justamente por ser fã sei de uma coisa…o conceito de super heroísmo clássico não é possível no mundo real, por mais bem intencionado que algum ser com super poderes fosse ele iria rapidamente fazer merda.
    Dê poder a alguem e ele será corrompido, dê poder total e ele será totalmente corrompido.

    • Eu acredito que em como ocorre na revista The Authority, a pretensão e arrogância de humanos com super-poderes, os levariam a cometer atos completamente insanos; – basta relembrar da nossa história, e o que alguns Reis foram capazes de cometer através de sua autoridade.

      • E a arrogância dos “super humanos” em relação as pessoas comuns? Quem pediu ou lhes deu atoridade para “combaterem o crime”? Eles são preparados para isso? Repare que nos filmes do quarteto fantástico e do homem aranha os heróis (e vilões) fizeram mais estrago na cidade que um ataque terrorista.
        O que seria interessante seria um grupo de heróis especialmente treinado para resolver situações com super vilões (e pretensos heróis) com o mínimo estrago possível. Essa situação é interessante, numa antiga hq sobre “o que aconteceria se” o justiceiro é criado quando um bando de heróis mata uma família que estava num parque no fogo cruzado contra super vilões.
        Frank Castle ao longo da história simplesmente mata TODOS os heróis e vilões marvel. E acreditem a lista de vítimas destes confrontos heróis e vilões eram extensos, cada vez que um fazia seus heroísmos vários civis se ferravam.
        Mais interessante ainda seria uma equipe de policiais treinados para policiar e controlar seres superpoderosos, é só dar o equipamento certo e o treinamento correto para os infelizes e eles aguentariam o rojão. O Batman mesmo já bolou vários planos, que funcionaram, para conter seus colegas mais dotados (é fato de que os vilões se utilizaram destes planos, mas que funcionaram funcionaram)

  2. Também sigo essa tendência, quando mestro tento ser verossímil e colocar questões morais.

    Sobre o Poder, não concordo que ele corrompa por si só, como disse um professor meu ele Revela, se a pessoa já era “ruim” tinha defeitos o poder só ira mostrar eles.

    Mas também não sou particularmente uma pessoa que acredita no absoluto.

    Ou seja, em raras vezes o poder Pode ser o caminho da corrupção, mas não seu motivador ou seu fim, algo mais corrompeu a pessoa, como disseram pretensão e arrogância, isso corrompeu a pessoa o Poder foi o meio que ela usou para isso, e não o motivador da corrupção.

    Pena que meus jogadores são muito cuca fresca para esse tipo de jogo, ou eu que quero ir muito a fundo no tema, rsrsrsrsrs. Quem sabe não consigo um equilíbrio.

    Post copiado.

  3. Infelizmente, há uma tendência para matar-pilhar-destruir na maioria das mesas atuais. Mesmo quando não tem o pilhar, matar-destruir ainda ocorre um bom número, e isso acaba dificultando para nós, que buscamos algo mais “cabeça”.

    Tentar trazer esse “cabeça” para os jogos tem se tornado difícil, muito difícil mesmo… Não são raras as vezes que vejo jogadores não prestando atenção quando tento colocar em foco esse lado mais filosófico nas campanhas…

    Belo texto, e mostrando clássicos dos quadrinhos! Espero que, quem puder, leia os citados… Não vai se arrepender o/

  4. Há anos tento levar o lado psicológico dos supers para minha mesa de jogo mas não tive sucesso. Ouço coisas como “Se tenho superfoça, pra que segurar meu soco?”. Infelizmente matar-pilhar está entranhado em várias formas de mídia e diversão.
    Até.

  5. ImRaphox e Elisa, obrigado pelos comentários e pela sintonia de pensamentos;

    Arquimago, acho que mesmo no mundo real, pessoas consideradas boas podem cometer atrocidades inimagináveis, corrompidas por um punhado de poder/autoridade depositadas em suas mãos; são muitos os exemplos em nossa história, e nas muitas guerras da humanidade.

    Erick, é uma questão de treinamento, as vezes com um pouco de esforço os jogadores acabam gostando do tema; – mas, por outro lado, existem muitas maneiras de obter um jogo divertido de RPG, essa é apenas uma delas.

    Abrçs e Bons Jogos!

  6. Imagine que vc tenha poderes psíquicos como o professor Xavier ou os poderes do super homem. Numa crise de raiva você poderia matar várias pessoas com um comando mental inadvertido (quem já não quis que algum desafeto morresse, ou melhor, quem não pensou “Tomara que esse cara morra”).
    Ou se vc quisesse algo, no caso do super, o que te impediria de pegar…afinal nada pode te deter. Um super humano pode até ser bem intencionado inicialmente, mas com o tempo todo mundo acaba ficando aborrecido ou enojado com o mundo que o cerca.
    Na realidade um super herói poderia acabar ficando com parte do roubo, ou mesmo todo ele, do vilão que capturou (não existem policiais corruptos), poderia simplesmente não querer arriscar a vida numa ação de resgate se as vítimas forem de outra religião ou casta (pq não poderiam haver supers muçulmanos que não dariam a mínima pra Israel ou o Ocidente).
    Resumindo, a existência verossímil de supers numa campanha seria um pouco problemática mas também daria muito pano pra manga. Num antigo cenário que desenvolvi, os supers haviam se originado numa invasão alienígena na qual foi utilizada um gás que dizimou 70% da população da terra e dotou 10% de poderes.
    Os super do meu cenário eram violentos e cruéis contra os invasores, mas a população geral os apoiava…o problema foi quando os invasores foram derrotados e uma população de super humanos com traumas de guerra ficaram soltos…

  7. Gárgula,

    Bacanas as dicas, são boas sugestões para uma continuação deste post.
    O bacana mesmo é saber que existem rpgistas com gostos e formas de pensar bem similares, além do feedback dos leitores da blogosfera.
    =]

    Obrigado pela visita e comentários.

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