De Mestre para Mestre #10 – Everton (Gordon Banks)

Décima edição da coluna de Mestre para Mestre, uma série de entrevistas com narradores experientes, buscando compartilhar ideias e contribuir para a formação de novos mestres, além de auxiliar os mais inexperientes e novatos.

Se você é um mestre inexperiente ou iniciante, aproveite está oportunidade para sanar suas dúvidas, através dos comentários. Você, mestre experiente, que deseja contribuir com a coluna, comente também sobre suas experiências e contribua no desenvolvimento de novos narradores. Além disso, aceitamos sugestões para aperfeiçoar e aprimorar a coluna.

De Mestre para Mestre #10

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Por favor, faça uma breve apresentação:

Olá, eu sou o Everton, tenho 28 anos, sou Escritor e Técnico de Segurança do Trabalho. Moro atualmente em Tatuí – SP.

Quanto tempo você mestra e como começou?

Em 1997, um amigo de escola me contava histórias sobre as sessões de RPG que ele tinha com o primo mais velho. Na época, ambos tínhamos 12 anos. Não demorou para formarmos um grupo na nossa sala e apresentar o RPG para todos. Comecei a mestrar em 1999 quando este mesmo amigo, nosso mestre oficial, mudou de escola. Recaiu sobre mim a responsabilidade de manter o interesse do grupo.

Qual é o seu estilo de jogo, como Mestre?

Sou um mestre permissivo. Gosto que os jogadores tenham ideais mirabolantes para sair de situações perigosas. Encorajo o improviso. Nem sempre a melhor maneira de passar pelos túneis dos orcs é porrada. Um sessão em que tudo que foi dito é “eu ataco”, para mim é um fracasso. Irrelevante o estilo do grupo, mesmo jogadores porradeiros tem que aprender a improvisar.

Quais são as melhores habilidades de um Mestre?

Criatividade é essencial. A mais importante habilidade de qualquer mestre. Poder de observação também é importante. Saber se a sessão está indo bem, se todos os jogadores estão satisfeitos, se o grupo precisa partir logo para o roleplay ou se ainda tem tempo para mais um encontro aleatório. E finalmente, jogo de cintura. Poder de improviso. Uma sessão nunca vai sair 100% da forma como você planejou, é preciso saber lidar com isso.

Quais são os seus maiores obstáculos narrando e o que faz para corrigir isso?

Meu maior problema é ser o tipo de jogador de ama roleplay. Por isso, mesmo como mestre, combates demais se tornam maçantes para mim e tenho que me esforçar para não transparecer que estou louco para que o combate termine de uma vez. Outra dificuldade que tenho é que, mesmo curtindo a interpretação, tenho dificuldade em fazer vozes diferentes para personagens importantes. Isso só se resolve metendo a cara na cena e perdendo a vergonha.

Qual o local e ambiente ideal para realizar uma sessão de RPG?

Uma sala, quarto ou cozinha que tenham, primeiramente, uma mesa. Em segundo lugar, o cômodo precisa ser um lugar silencioso, sem distrações. Nada de TV, computador, vídeo-game ou aquela mãe/irmã que interrompe o andamento da sessão o tempo todo.

Como você organiza as suas sessões de RPG?

Normalmente, vou atrás dos jogadores, um por um. E-mail, Facebook, WhatsApp e qualquer forma digital de entrar em contato com os interessados. Tendo em mãos uma aventura pronta, seja formulada por mim mesmo ou achada de alguma outra forma.

Qual o seu processo de pesquisa e planejamento para desenvolver uma história e aplicá-la em jogo?

Normalmente, tudo começa com uma frase ou cena marcante, seja de um livro, um filme ou uma música. Parto para amarração da história, baseada naquela cena que me inspirou e quando a história em si estiver pronta, começo a encaixar os números nela, para fazer tudo ficar redondo para o nível da mesa.

Quais são os temas recorrentes em seus jogos e como faz para usá-los?

Gosto muito de aventuras “épicas”. Uso épico aqui no sentido de ser algo menor, que vai culminar eventualmente numa grande aventura de proporções gigantescas com impacto no cenário todo. Os personagens vão achando pistas de uma grande trama e no final, precisam realizar algo grandioso para fechar o arco. Isso normalmente é fácil de se arrumar, os jogadores dificilmente resistem a personagens misteriosos e artefatos esquecidos.

Como manter os jogadores focados no jogo?

Isso é um pouco difícil. Você tem que ter intimidade com o grupo, o bastante para meter um “CALA A BOCA” de vez em quando. Mas a sessão não pode ser regada à Mestre gritando e pedindo por silêncio. Então, tirando o indispensável respeito que cada jogador tem pela sessão, cabe ao Mestre ter uma aventura interessante, uma narrativa rica e um pouco de jogo de cintura.

Quais são as principais qualidades de um jogador e como explorá-las a favor do jogo?

Cada jogador vai ter qualidades diferentes. São indivíduos. Mas boas qualidades seriam, atenção aos detalhes, imersão na aventura, pro-ativismo (ter ideias, dar palpites, sugerir soluções e não simplesmente esperar o combate e dizer “eu ataco”). Quanto a explorar as qualidades, também vai exigir alguma criatividade por parte do mestre, um exemplo é aquele jogador palhaço que adora fazer o personagem se enfiar em situações ridículas. Um bom uso para isso é fazer com que a situação ridícula gere algo para o grupo (para o bem ou para o mal).

Quais ferramentas ou acessórios você usa, e como eles são capazes de auxiliar mestres?

Uso sempre o escudo e acho indispensável. Ele te permite esconder resultados indesejáveis e se você tiver um bom poker face, consegue esconder bem de um jogador que ele acabou de ser morto pela Quimera, ou que ele falhou no teste de resistência e está petrificado. Fora ele, os livros do sistema. Para tirar dúvidas que possam surgir. Já quis usar música, iluminação e afins, mas acabou que meus grupos nunca tinham esse tipo de afinidade.

Quais são suas principais referências, além do RPG?

Literatura, vídeo-game e cinema.

Na sua visão de Mestre, descreva uma sessão de RPG perfeita?

Ninguém interrompe a narração, todos os jogadores ficam imersos nos personagens e no final todo mundo se diverte.

Um conselho essencial para um mestre inexperiente?

Mestrar pela primeira vez pode ser uma experiência assustadora. É poder demais na sua mão e você não tem ainda a noção de como dosar o uso desse poder. Mas você tem que se manter calmo, ter confiança nas suas decisões, ter pulso firme com os jogadores e nunca se esquecer que todo mundo que está numa sessão de RPG quer se divertir, então não adianta ficar emburrado, ser grosseiro, fazer ameaça e afins. Mestrar não é pra todo mundo, admito, mas você nunca vai descobrir se é para você se você não tentar. Então manda bala, tome um pouco desse poder descomunal para si e brinque de deus um pouquinho.

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