De Mestre para Mestre #12 – Nielison Brito

Décima segunda edição da coluna de Mestre para Mestre, uma série de entrevistas com narradores experientes, buscando compartilhar ideias e contribuir para a formação de novos mestres, além de auxiliar os mais inexperientes e novatos.

Se você é um mestre inexperiente ou iniciante, aproveite está oportunidade para sanar suas dúvidas, através dos comentários. Você, mestre experiente, que deseja contribuir com a coluna, comente também sobre suas experiências e contribua no desenvolvimento de novos narradores. Além disso, aceitamos sugestões para aperfeiçoar e aprimorar a coluna.

De Mestre para Mestre #12

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Por favor, faça uma breve apresentação:

Sou Nielison Brito, 31 anos, físico não praticante, funcionário público. Moro em Campina Grande, na Paraíba.

Quanto tempo você mestra e como começou?

Comecei a jogar RPG lá pelos idos de 1994, 1995, eu tinha uns 11 anos. Um vizinho apareceu com o ‘Hero Quest’, dizendo que era um tal de RPG, um tipo de jogo muito complicado, só para adultos. Jogamos e viciamos. Logo, ele comprou o ‘GURPS’, que tinha acabado de ser lançado (segunda edição, capa preta), e foi minha primeira experiência com um RPG de verdade. Me apaixonei imediatamente e quis logo mestrar minha própria aventura. Encontrei, numa loja da cidade, a edição da Grow do ‘Dungeons & Dragons’. Desde então, ser mestre se tornou minha maneira preferida de jogar RPG.

Parei de jogar por um tempo, e voltei em 1998, mais ou menos, quando conheci o sistema Storyteller. Li o ‘Vampiro – A Máscara’ e, na revista Dragão Brasil, descobri o ‘Mago – A Ascensão’. Comprei-o e endoidei; e, apesar de tê-lo mestrado muito pouco, é ainda meu RPG preferido.

Depois parei de novo, até hoje. Estou voltando, meio que acidentalmente, depois de ter participado do concurso Orquestra RPG e ganhado com o jogo ‘Desvio para o Negro’.

Qual é o seu estilo de jogo, como Mestre?

Tendo a preferir RPGs mais psicológicos, que se utilizem de mistério/suspense/horror. Sessões que explorem mais o aspecto social dos jogadores/personagens. Mas ainda gosto muito das velhas aventuras medievais, porém mais como jogador, devido à satisfação de ver meu personagem evoluir e se tornar cada vez mais poderoso.

Quais são as melhores habilidades de um Mestre?

Ele precisa ter um controle narrativo e conhecimento pleno dos personagens e cenários que utilizará na sessão. Dependendo do jogo, é essencial saber criar/manter o ritmo.

Quais são os seus maiores obstáculos narrando e o que faz para corrigir isso?

Para mim, é se disponibilizar a preparar uma aventura. Apesar de não ser do tipo de mestre que anota todos os detalhes de suas aventuras, tenho muito problema em parar, sentar e pensar em como será a sessão. Por isso, acabo sendo o pior tipo de mestre: o mestre que não mestra.

Qual o local e ambiente ideal para realizar uma sessão de RPG?

O local e ambientação dependerão muito da aventura. Para mim, o ideal é que, no mínimo, seja um lugar sem distrações, principalmente de outras pessoas não-jogadoras.

Como você organiza as suas sessões de RPG?

Não tenho muitas firulas. Só peço que os jogadores levem lápis, papel e, se tiverem e for necessário, dados.

Qual o seu processo de pesquisa e planejamento para desenvolver uma história e aplicá-la em jogo?

Gosto de criar o meu próprio universo e mitologia para usar em minhas aventuras, mesmo que sejam baseados nos que já venham ambientados no RPG de qual irei fazer a aventura. Então, quando há pesquisa, é no próprio RPG. Obviamente, se eu for usar algo específico que não conheça, dou uma olhada sobre na internet.

O planejamento, realizo durante o dia-a-dia, enquanto faço outras coisas. Vou pensando sobre, tentando desenvolver o universo e a história na qual se dará a sessão, e sempre que me vem uma boa ideia, anoto em tópicos. Depois, perto do dia marcado para jogar, tento organizar todas as anotações e encontrar soluções para o que faltar.

Quais são os temas recorrentes em seus jogos e como faz para usá-los?

Não sei dizer se há um tema recorrente. Mas, como já comentei, procuro sempre trazer mais interações sociais que combates. Procuro fazer isso criando situações em que os personagens precisem resolver algo através de diálogos com NPCs, ou eles mesmos, e não com a boa e velha porradaria.

Como manter os jogadores focados no jogo?

Além do controle narrativo, conhecimento do universo e noção de ritmo, é muito importante que o mestre crie uma aventura que faça os jogadores pensarem, não só seus personagens. Que parte do processo não seja decidido somente pelo sistema e jogada de dados, mas também pela imaginação e criatividade dos jogadores. Uma boa maneira de se conseguir isso é criando ‘enigmas’, mistérios, situações em que o jogador se sinta curioso, intrigado, mas ao mesmo tempo cauteloso. Isso tudo traz um grau de imersão que mantém qualquer um focado.

Óbvio que, em grande parte, isso é responsabilidade do mestre. Mas os jogadores devem estar dispostos a se focarem. É muito comum jogadores que não estejam concentrados durante a sessão, ou que direcionam seu foco para as interações com outros jogadores em off. Nesse caso, a solução é conversar com o jogador ou tirar ele da partida mesmo.

Quais são as principais qualidades de um jogador e como explorá-las a favor do jogo?

Empatia. Saber reagir da maneira como seu personagem reagiria, e não como ele próprio (que, aliás, é mais comum do que parece). Com isso, já temos um bom jogador. Para uma mesa com bons jogadores, basta somente um bom mestre. O resto virá por si só.

Quais ferramentas ou acessórios você usa, e como eles são capazes de auxiliar mestres?

Não costumo utilizar muitos acessórios. Mas, como disse, apesar de conhecer RPG há muito tempo e gostar muito de narrar, não tenho tanta bagagem como mestre, então nunca pensei muito no que poderia utilizar para me auxiliar. Normalmente, o básico: iluminação e música.

Considero que o comportamento do mestre durante a sessão já pode ser uma ótima ferramenta. Lembro que um amigo, o melhor mestre que já conheci, sempre mestrava em pé e gesticulando muito; e uma vez, num encontro de RPG, ele estava mestrando e, não só sua mesa, como todo o encontro estava concentrado nele, simplesmente porque ele se comportava de um jeito que parecia que aquilo tudo estava realmente acontecendo. Quando o mestre se comporta como quem tá realmente empolgado, tenso, surpreso, etc, os jogadores se sentirão igualmente empolgados, tensos, surpresos, etc.

Quais são suas principais referências, além do RPG?

Literatura, quadrinhos e cinema. Como disse, costumo desenvolver meus próprios universos, mas muitas vezes eles partem de alguma outra obra.

Na sua visão de Mestre, descreva uma sessão de RPG perfeita?

Isso é muito relativo. Já vi sessões que, devido à maneira do mestre narrar, me pareceram um desastre total, mas todos os jogadores adoraram! Então, eu diria que bastam jogadores bons e mestre bom, todos tendo em mente que muitas vezes é necessário saber se adaptar uns aos outros.

A minha sessão perfeita foi exatamente com o meu citado amigo-melhor-mestre-do-mundo, numa partida de ‘Vampiro- A Máscara’, só eu e outro amigo como jogadores. Nossos personagens estavam trabalhando juntos por alguma obrigação, que não me lembro, mas nos odiávamos. Então, a aventura se deu inteira, além do curso normal da narrativa, com um tentando descobrir segredos do outro. A sessão toda não teve um único combate, pouquíssimas jogadas de dados, muito diálogo e planejamento. Foi fantástico.

Um conselho essencial para um mestre inexperiente?

Quase tudo que falei aqui pode ser usado como conselho.

Como estou fora do meio há um tempão, imagino que os ‘desafios’ de ser mestre de hoje sejam bem diferentes dos que eram no meu tempo. Quando comecei, ainda se narrava como quem tá lendo um livro infantil: “O rei oferece 1000 peças de ouro para vocês resgatarem a princesa e pergunta quem é bravo o suficiente para encarar esta aventura. O que vocês fazem?”. Isso já é um problema resolvido, dentro de nossa cultura RPGística, e considerado ultrapassado. Considerando isso tudo, imagino que, hoje, o inexperiente seja eu.

Mas vale aquilo tudo que eu disse: desenvolva bem seus personagens e cenários (não precisa fazer ficha completa, anotar tudo que eles falam e todas as ruas da cidade, mas ter em mente como eles pensam e como o ambiente deve ser), seja seguro na sua narrativa, coloque elementos que deixem os jogadores intrigados, controle o ritmo. No mais, se divertir.

Ah! Uma última palavrinha:

Como comentei, participei no ano passado do concurso Orquestra RPG com o jogo ‘Desvio para o Negro’. Acabei vencendo, então pensei que talvez valesse a pena desenvolver melhor o projeto e, dando tudo certo, trazer ele para o mundo físico. Estou na fase de revisar cenário e sistema, reescrever o livro e partir para os playtests. Sendo assim, nessa etapa, é essencial receber feedbacks. Então, quem se interessar, visite a fanpage ‘Desvio para o Negro’ no facebook. Lá vocês encontrarão um link para ler a primeira versão do jogo. Deem uma olhada e tragam críticas, sugestões, opiniões, etc. Todas serão de muita ajuda e muito bem vindas.

Abraços!

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